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Agosto, Olùbàjẹ e o Sentido do Opanijé!

Mo túnbá gbogbo.

Agosto é, em muitas casas de Candomblé, tempo de reverenciar Ọbalúwáiyè e realizar o Olùbàjẹ, seu grande banquete ritual. Quando terminar essa postagem, não deixe de conhecer a postagem sobre o nome correto desse ritual tão importante: Olúbájẹ́/ Olùbàjẹ ou Olùgbàjẹ? Qual o Correto?

Nesse momento, diferentes comidas são oferecidas ao Òrìṣà e depois compartilhadas entre os presentes. Cada pessoa recebe sua porção em sinal de comunhão e, sobretudo, de súplica por saúde, proteção e longevidade.

É também nesse contexto que ouvimos o Opanijé, toque e dança característicos de Ọbalúayé.

Mas o que significa essa palavra Opanijé?

Uma explicação muito repetida na internet, estando na Wikipedia, postagens no Facebook antigas e Instagram, afirmam que Opanijé significaria “aceitar comer”! Será? Vamos analisar o que é dito:

opa = aceitar;
nijé = comer.

Essa tradução não se sustenta na língua yorùbá.

“Receber” ou “aceitar” é gbà.
Ọ̀pá significa bastão ou cajado.
Ó pa significa “ele mata”.
E “comer” é jẹ ou jẹun.

Pierre Verger registra outra tradução para Opanijé:

“Ele mata qualquer um e o come.”

Embora Verger não apresente os tons nem explique a formação da expressão, existe uma construção yorùbá que pode fundamentar essa interpretação:

Ó pa ẹni jẹ.

ó = ele;
pa = matar;
ẹni = alguém, uma pessoa;
jẹ = comer.

Portanto:

“Ele mata alguém e o come.”

Há ainda uma segunda possibilidade. Em algumas casas tradicionais, como a Casa Branca do Engenho Velho, o nome do toque também aparece como apanijé.

Essa variante se aproxima de apanijẹ, palavra empregada em yorùbá para designar um predador ou animal carnívoro: aquele que mata para comer.

Mas o que uma expressão tão forte tem a ver com Ọbalúwáiyè e o Olùbàjẹ?

Ọbalúwáiyè reúne poderes que causam temor e, ao mesmo tempo, despertam esperança. Está relacionado à enfermidade, mas também à possibilidade de cura; ao sofrimento do corpo, mas também à sua recuperação; à terra que alimenta os seres humanos, mas que também recebe novamente os seus corpos.

Por isso, a tradução “ele mata e come” não deve ser entendida como se estivéssemos falando simplesmente de um òrìṣà que devora pessoas.

A expressão ressalta a dimensão terrível de seu poder: Ọbalúwáiyè não é uma divindade inofensiva ou domesticada. Ele representa forças diante das quais o ser humano reconhece sua fragilidade.

É justamente por conhecer sua potência que a comunidade lhe oferece o Olùbàjẹ e pede:

Que a doença não nos consuma.
Que o corpo encontre cura.
Que a vida seja preservada.
Que possamos comer e continuar entre os vivos.

Existe, portanto, uma profunda relação entre o toque e o banquete. No Opanijé, Ọbalúwáiyè manifesta sua força. No Olùbàjẹ, a comunidade transforma o alimento compartilhado em pedido coletivo de saúde e longevidade.

O toque, a dança, as comidas, o corpo, a enfermidade e a cura não são elementos separados. Todos fazem parte da mesma linguagem ritual.

Assim, neste mês de agosto, quando o som do Opanijé ecoar nos barracões e as comidas do Olùbàjẹ forem distribuídas, lembremos:

Ọbalúwáiyè é temido porque conhece os caminhos da doença e é reverenciado porque também conhece os caminhos da cura.

Conclusão:

Portanto, ao nomear o toque e a dança de Ọbalúwáiyè no Candomblé brasileiro, escreva Opanijé, forma consagrada pela tradição afro-brasileira. Caso se queira registrar a possível frase iorubá preservada nesse nome, deve-se escrever Ó pa ẹni jẹ ou Ópanijẹ, em quatro palavras: ó (ele), pa (matar), ẹni (alguém) e jẹ (comer). Assim, não há fundamento linguístico para separar a palavra em opa + nijé nem para traduzi-la como “aceitar comer”. Opanijé é o nome tradicional do toque no Brasil; Ó pa ẹni jẹ/ Ópanijẹ é uma reconstrução linguística possível da expressão: “ele mata alguém e o come”.

Atótóo ,Ó dé! 
Silêncio, ele chegou!

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Fontes:

Pierre Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo.

Yeda Pessoa de Castro — Falares africanos na Bahia.

Luciano da Silva Candemil — A percussão do Candomblé Ketu em Santa Catarina.

Samuel Ajayi Crowther — A Vocabulary of the Yoruba Language.

Vanderson Nogueira | Olùkọ́ Vander é professor de língua e cultura yorùbá e fundador da Educa Yorùbá. Desde 2008, dedica-se ao ensino do idioma e à valorização da filosofia, da cultura e dos saberes yorùbá preservados no Brasil. É graduado em Gestão Pública, Direito e pós-graduado em Filosofia.